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sábado, 9 de novembro de 2013

Inteligência, coração, contemplação

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

Inteligência, coração, contemplação

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 43 de 24 de Outubro de 2013
 
Na homilia da missa celebrada na manhã de terça-feira, 22 de Outubro, o Papa afirmou que Deus não nos salvou por decreto ou por lei mas com a sua vida. Naturalmente trata-se de algo que não é fácil compreender nem explicar. A este propósito o Santo padre indicou três palavras que podem facilitar a nossa compreensão: contemplação, proximidade e abundância.
Antes de tudo a contemplação. Sem dúvida trata-se de um mistério extraordinário, a ponto que «a Igreja, quando quer dizer-nos algo sobre este mistério, usa só uma palavra: admiravelmente. Diz: Ó Deus, tu que admiravelmente criaste o mundo e mais admiravelmente o recriaste...». Para compreender é necessário pôr-se de joelhos, rezar e contemplar. A segunda palavra à qual o Papa se referiu é «proximidade». «A imagem que me vem em mente — confidenciou o Pontífice — é o enfermeiro ou a enfermeira que num hospital cuida das feridas uma por uma, mas com as suas mãos. Deus entra nas nossas misérias, aproxima-se das nossas chagas e cura-as com as suas mãos; e para ter mãos fez-se homem.
A terceira palavra é «abundância». Na carta de Paulo repete-se diversas vezes: «Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça». Assim entende-se também «a preferência de Jesus pelos pecadores. Acusavam-no de estar sempre com os publicanos, com os pecadores. Comer com os publicanos era um escândalo, porque no coração destas pessoas abundava o pecado».
Certamente, frisou o Pontífice, há pessoas que não gostam de ouvir dizer que os pecadores estão mais perto do coração de Jesus, que «ele vai procurá-los, chama todos. E quando lhe pedem uma explicação, diz: mas, quem tem boa saúde não precisa de médico; vim para curar, para salvar em abundância». Alguns santos, recordou o Papa, «dizem que um dos pecados piores é a desconfiança, não confiar em Deus. Mas como podemos não confiar num Deus tão próximo, tão bom, que prefere o nosso coração pecador? É assim este mistério: não é fácil compreendê-lo, não se entende bem, não se pode entender só com a inteligência.
No início da homilia da missa celebrada na manhã se segunda-feira, 21 de Outubro, o Santo Padre recordou a figura do homem que pede a Jesus que intime ao seu irmão para dividir com ele a herança. Com efeito, para o Pontífice o Senhor fala-nos através desta personagem «da nossa relação com as riquezas e com o dinheiro». Um tema que não é só de há dois mil anos mas que se apresenta ainda hoje, todos os dias. «Quantas famílias destruídas — comentou — vimos por problemas de dinheiro: irmão contra irmão; pai contra filhos!». Porque a primeira consequência do apego ao dinheiro é a destruição do indivíduo e de quem lhe está próximo. Certamente, o dinheiro não deve ser exorcizado de modo absoluto. «O dinheiro — esclareceu o Papa Francisco — serve para realizar tantas coisas boas, tantas obras, para desenvolver a humanidade. O que deve ser condenado, ao contrário, é o seu uso exagerado. A característica mais perigosa da avidez é precisamente a de ser «um instrumento da idolatria; porque vai em sentido oposto» ao caminho traçado por Deus para os homens. Por este motivo, acrescentou o Pontífice, «Jesus diz coisas tão duras e tão fortes, contra o apego ao dinheiro»: por exemplo, quando recorda «que não se podem servir dois senhores: ou Deus ou o dinheiro». Um comportamento em aberto contraste com esta confiança na misericórdia divina é precisamente o do protagonista da parábola evangélica, o qual não conseguia pensar em mais nada a não ser na abundância do grão colhido nos campos e dos bens acumulados. Um comportamento que, segundo o Papa, acalenta a ambição de alcançar uma espécie de divindade, «quase uma divindade idólatra», como testemunham os pensamentos do homem: «Alma minha, tens à disposição muitos bens, por muitos anos; repousa, come, bebe, diverte-te».
Mas é precisamente então que Deus o reconduz à sua realidade de criatura, advertindo-o com a frase: «Insensato, esta mesma noite ser-te-á pedida a tua vida». Porque, concluiu o bispo de Roma, «este caminho contrário ao caminho de Deus é uma insensatez, conduz longe da vida. Destrói qualquer fraternidade humana». Enquanto o Senhor nos mostra o caminho verdadeiro. Que «não é o caminho da pobreza para a pobreza»; ao contrário, é o caminho da pobreza como «instrumento, para que Deus seja Deus, para que Ele seja o único Senhor, não o ídolo de ouro». Com efeito, «todos os bens que possuímos, o Senhor no-los concede para que sejam em benefício do mundo, da humanidade, para ajudar os outros».
Na missa celebrada na manhã de sexta-feira 18 de Outubro, o Papa Francisco dirigiu o pensamento para «três ícones» do sofrimento: Moisés, João Baptista e Paulo. Moisés que lutava contra os inimigos; João Baptista sentia-se atormentado pela angústia, e Paulo, o qual confidencia a Timóteo toda a sua amargura.
A meditação sobre as frases finais da vida destes personagens sugeriu ao santo Padre «a recordação daqueles santuários de apostolicidade e santidade que são as casas de repouso dos sacerdotes e das religiosas». Visitá-los significa realizar «verdadeiras peregrinações, a estes santuários de santidade e apostolicidade», como se fôssemos peregrinos que visitam os santuários marianos ou dedicados aos santos. «Mas pergunto-me — acrescentou o Papa — nós cristãos temos vontade de fazer uma visita, que será uma verdadeira peregrinação? Nas casas de repouso «as religiosas e os sacerdotes — disse o Papa — esperam o Senhor quase como Paulo: um pouco tristes, deveras, mas também com uma certa paz, com rosto alegre». Precisamente por isto faz «bem a todos pensar nesta etapa da vida que é o ocaso do apóstolo».
E na quinta-feira 17 de Outubro, o Pontífice centrou a sua homilia no trecho evangélico de Lucas (11, 47-54), que apresenta a advertência de Jesus aos doutores da lei: «Ai de vós porque vos apoderastes da chave da ciência: Vós próprios não entrastes e impedistes a entrada àqueles que queriam entrar», associando-vos à imagem de «uma igreja fechada» na qual «as pessoas que passam em frente não podem entrar» e de onde «o Senhor que está dentro não pode sair». Eis a exortação aos «cristãos que têm nas mãos a chave e a levam embora, não abrem a porta», ou pior, «param na frente da porta» e «não deixam ninguém entrar». E exortou a pedir ao Senhor a graça de nunca deixar «de rezar para não perder a fé» e de «permanecer humildes» para não se transformar em pessoas fechadas «que não abrem a porta ao Senhor».



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Para vencer os pecados da idolatria e da hipocrisia

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

Para vencer os pecados da idolatria e da hipocrisia

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 42 de 17 de Outubro de 2013
Hipocrisia e idolatria «são pecados graves» que têm origens históricas, mas que ainda hoje se repetem com frequência, inclusive entre os cristãos. Superá-los é «muito difícil»: para o fazer «temos necessidade da graça de Deus». Foi a reflexão do Papa Francisco depois das leituras da missa celebrada na manhã de terça-feira, 15 de Outubro.
Os idólatras «não têm motivo algum de desculpa. Mesmo tendo conhecido Deus — realçou o bispo de Roma — não o glorificaram, nem lhe agradeceram como se fosse Deus». Mas qual é a estrada dos idólatras? São Paulo fala disto muito claramente aos romanos. É um caminho que desorienta: «perderam-se nos seus vãos raciocínios e a sua mente obtusa escureceu-se». A isto leva «o egoísmo do próprio pensamento, o pensamento omnipotente» que diz «o que eu penso é verdadeiro, eu penso a verdade, pratico a verdade com o meu pensamento». E precisamente enquanto se declaravam sábios, os homens dos quais são Paulo fala «tornaram-se insensatos. Trocaram a glória do Deus incorruptível por uma imagem e uma figura de homem corruptível, de pássaros, de quadrúpedes, de répteis».
Poderíamos ser levados a pensar, advertiu o Papa, que se trata de atitudes do passado: «hoje nenhum de nós vai pelas ruas a adorar estátuas». Mas não é assim porque «também hoje — disse o Pontífice — há ídolos e muitos idólatras. Tantos que se consideram sábios, inclusive entre nós, entre os cristãos».
Outro pecado «contra o primeiro mandamento proposto pela liturgia de hoje é a hipocrisia», continuou o Santo Padre. A inspiração para esta ulterior reflexão foi-lhe oferecida pela narração de Lucas na qual se fala de «um homem que convida Jesus para almoçar e escandaliza-se porque ele não lava as mãos» e pensa que Jesus seja um «injusto» pois «não cumpre o que deve ser feito». Mas assim «como Paulo não poupa palavras contra os idólatras — frisou o Santo Padre — também Jesus não poupa palavras contra os hipócritas: vós, fariseus, limpais a parte externa dos copos e dos pratos, mas dentro estais cheios de avidez e maldade. É muito claro! Sois ávidos e malvados, insensatos». Usa «a mesma palavra que Paulo diz dos idólatras: tornaram-se insensatos, insensatos. E que conselho dá Jesus? Dai como esmola o que está dentro do prato e eis que para vós tudo será mais puro».
Portanto, Jesus aconselha a «não olhar para as aparências» mas a ir ao âmago da verdade: «o prato é o prato, mas é mais importante o que está dentro do prato: a refeição. Mas se és um vaidoso, se és um carreirista, um ambicioso, uma pessoa que se vangloria sempre de si mesma ou que gosta de se vangloriar, porque se acha perfeita, dá um pouco de esmola e esta curará a sua hipocrisia».
«Eis — concluiu o Papa — o caminho do Senhor: adorar a Deus, amar a Deus sobre todas as coisas, e amar ao próximo. É tão simples, mas muito difícil. Só podemos fazer isto com a graça. Peçamos a graça».
Na missa celebrada na manhã de segunda-feira, 14 de Outubro o Papa Francisco — comentando as leituras da liturgia, tiradas da carta de são Paulo aos Romanos (1, 1-7) e do Evangelho de Lucas (11, 29-32) — propôs uma reflexão sobre a síndrome de Jonas: uma grave doença que hoje ameaça os cristãos, que os faz sentir perfeitos e limpos como acabados de sair da lavandaria. O Pontífice iniciou exactamente daquela «palavra forte» com a qual Jesus apostrofou um grupo de pessoas chamando-as «geração malvada». É «uma palavra — frisou — que quase parece um insulto: esta é uma geração malvada. É muito forte! Jesus tão bom, humilde, manso, mas pronuncia esta palavra». Todavia, explicou o Pontífice, certamente ele não se referia às pessoas que o seguiam; mas aos doutores da lei, a quantos tentavam pô-lo à prova, fazê-lo cair na armadilha. Eram pessoas que pediam sinais e provas. E Jesus responde que o único sinal que lhes será dado é o «sinal de Jonas».
Mas qual é o sinal de Jonas? «Na semana passada — recordou o Papa — a liturgia fez-nos reflectir sobre Jonas. E agora Jesus promete o sinal de Jonas». Antes de explicar este sinal, o Papa Francisco exortou a reflectir sobre outro pormenor que se deduz da narração evangélica: a «síndrome de Jonas», que o profeta tinha no seu coração. Ele, explicou o Santo Padre, «não queria ir a Nínive e fugiu para a Espanha». Pensava que tinha as ideias claras: «a doutrina é esta, deve-se crer nisto. Se eles são pecadores, que se arranjem; eu não tenho nada com isso! Esta é a síndrome de Jonas». E «Jesus condena-a. Por exemplo, no capítulo vinte e três de são Mateus os que acreditam nesta síndrome são chamados hipócritas. Não querem a salvação daquelas pobres pessoas. Deus diz a Jonas: pobrezinhos, não distinguem a direita da esquerda, são ignorantes e pecadores. Mas Jonas continua a insistir: eles querem justiça! Eu observo todos os mandamentos; que façam o mesmo».
Eis a síndrome de Jonas que «atinge os que não têm zelo pela conversão das pessoas, procuram uma santidade — desculpem que diga — uma santidade de lavandaria, isto é, bem engomada, bem feita, mas sem o zelo que nos leva a anunciar o Senhor». O Papa recordou que o Senhor «diante desta geração, doente da síndrome de Jonas, promete o sinal de Jonas».



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Como se derrota a estratégia do diabo

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

 Como se derrota a estratégia do diabo

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 41 de 13 de Outubro de 2013
«Por favor, não façamos negócios com o diabo» e levemos a sério os perigos que derivam da sua presença no mundo», recomendou o Papa na manhã de 11 de Outubro, na homilia da missa em Santa Marta. «A presença do diabo está na primeira página da Bíblia, que termina com a vitória de Deus sobre o demónio», que volta sempre com as tentações. Não podemos «ser ingénuos».
O Pontífice comentou o episódio em que Lucas (11,15-26) fala de Jesus que expulsa os demónios. O evangelista menciona também os comentários de quantos assistem perplexos e acusam Jesus de magia ou, no máximo, reconhecem que Ele é só um curandeiro de pessoas que sofrem de epilepsia. Também hoje, observou o Papa, «existem sacerdotes que quando lêem este e outros trechos do Evangelho, dizem: Jesus curou uma pessoa de uma doença psíquica». Sem dúvida, «é verdade que naquela época era possível confundir a epilepsia com a possessão do demónio, mas também a presença do demónio era verdadeira. E nós não temos o direito de simplificar a questão», como se se tratasse de doentes psíquicos, e não de endemoninhados.
Voltando ao Evangelho, o Papa disse que Jesus nos oferece critérios para compreender esta presença e reagir: «Como ir pelo nosso caminho cristão, quando há tentações? Quando nos perturba o diabo?». O primeiro critério sugerido pelo trecho evangélico «é que se pode obter a vitória de Jesus sobre o mal, sobre o diabo, parcialmente».
Não se pode continuar a crer que é um exagero: «Ou estás com Jesus, ou contra Ele. E neste ponto não há alternativas. Existe uma luta na qual está em jogo a nossa salvação eterna». E não há alternativas, embora às vezes ouçamos «propostas pastorais» que parecem mais tolerantes.
Eis os critérios para enfrentar os desafios da presença do diabo no mundo: a certeza de que «Jesus luta contra o diabo», «quem não está com Jesus está contra Ele» e «a vigilância». É preciso ter presente que «o demónio é astuto: nunca é expulso para sempre, e só o será no último dia», pois quando «o espírito impuro — recordou — sai do homem, vagueia por lugares desertos à procura de alívio e, dado que não o encontra, diz: voltarei à minha casa, de onde saí. Quando volta, encontra-a limpa e adornada; vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e estabelecem-se ali. E a última condição desse homem vem a ser pior do que a primeira».
Eis por que motivo é preciso vigiar. «A sua estratégia avisou o Papa — é esta: tornaste-te cristão, vai em frente na tua fé e eu deixo-te tranquilo. Mas depois, quando te habituas e já não vigias, sentindo-te seguro, eu volto. O Evangelho de hoje começa com o demónio expulso e termina com o diabo que volta. São Pedro dizia: é como um leão feroz que dá voltas ao nosso redor». E isto não é mentira, «é a Palavra do Senhor».
E na missa de 10 de Outubro o Papa voltou a falar sobre a força e a coragem da oração. A nossa oração deve ser corajosa e não tíbia, se não quisermos obter só as graças necessárias mas sobretudo através dela, conhecer o Senhor. Se pedirmos, Ele mesmo nos trará a graça.
À necessidade de rezar com insistência se for necessário, mas deixando-se sempre envolver por ela, refere-se o trecho litúrgico do Evangelho de Lucas (11, 5-13) «com esta parábola — explicou o Pontífice — do amigo atrevido, o amigo inoportuno», que na noite funda vai pedir pão a outro amigo para saciar um conhecido que acabou de chegar à sua casa e ao qual nada tinha a oferecer. «Com esta solicitação — frisou — o amigo teve que se levantar da cama e dar-lhe o pão. Isto faz-nos pensar na nossa oração. Como rezamos? Rezamos por costume, piedosamente, mas tranquilos, ou pomo-nos com coragem diante do Senhor para pedir a graça, para pedir por que rezamos?».
A atitude é importante porque «uma oração que não for corajosa — afirmou o Pontífice — não é uma oração verdadeira». Quando rezamos é necessária «a coragem de acreditar que o Senhor nos ouve, a coragem de bater à porta».
Mas, perguntou-se o Santo Padre, a nossa oração é assim? Ou limitamo-nos a dizer: «Senhor tenho necessidade, fazei-me esta graça»? Numa palavra, «deixamo-nos envolver na oração? Sabemos bater à porta do coração de Deus?».
Portanto «quando rezamos corajosamente, o Senhor não só nos dá a graça, mas doa-se também a si mesmo na graça». «Porque o Senhor — explicou o Papa com uma expressão incisiva — nunca dá ou envia uma graça pelo correio: é ele quem a leva, é Ele a graça!».
«Hoje — disse na conclusão — na oração, na colecta, dissemos ao Senhor que nos dê aquilo que nem a oração ousa pedir. E o que é que nós não ousamos pedir? Ele mesmo! Nós pedimos uma graça, mas não ousamos dizer: vem tu trazê-la a mim. Sabemos que uma graça é sempre trazida por ele: é ele que vem e no-la dá. Não façamos má figura aceitando a graça sem reconhecer que quem a traz, quem no-la dá, é o Senhor».
Na missa celebrada na manhã de terça-feira, 8 de Outubro, o Papa reflectiu sobre o valor da oração: não de «papagaio» mas «feita com o coração» que nos faz «olhar para o Senhor, escutar o Senhor, pedir ao Senhor». Rezar significa abrir a porta ao Senhor a fim de que possa fazer algo para reorganizar as nossas situações. O sacerdote que cumpre o seu dever, mas não abre a porta ao Senhor, corre o risco de se tornar só um «profissional».
A reflexão desenvolveu-se a partir das leituras da liturgia, tiradas do livro de Jonas (3, 1-10) e do Evangelho de Lucas (10, 38-42). Em particular, referindo-se ao trecho evangélico o Pontífice propôs como modelo a seguir a atitude de Maria, uma das duas mulheres que hospedaram Jesus na sua casa. De facto, Maria parou para escutar e olhar para o Senhor, enquanto Marta, a irmã, continuou a ocupar-se dos afazeres de casa.
«A palavra do Senhor — explicou o Papa — é clara: Maria escolheu a melhor parte, a da oração, da contemplação de Jesus. Na opinião da outra irmã era perda de tempo». Maria parou para contemplar o Senhor como uma menina admirada, «em vez de trabalhar como fazia a outra».
A atitude de Maria é justa porque, frisou o Pontífice, ela «escutava o Senhor e orava com o seu coração». Eis o que «nos quer dizer o Senhor. A primeira tarefa na vida é a oração. Não a oração das palavras como papagaios, mas a oração do coração», através da qual é possível «contemplar o Senhor, escutar o Senhor, pedir ao Senhor. E nós sabemos que a oração faz milagres».
E na celebração da missa na manhã de segunda-feira, 7 de Outubro, o Papa Francisco sugeriu que deixemos que Deus escreva a nossa história. Para ouvir a voz de Deus na própria vida é preciso ter um coração aberto às surpresas. Caso contrário o risco é de «fugir de Deus», encontrando às vezes até uma boa desculpa. E pode acontecer que exactamente os cristãos sintam a tentação de fugir de Deus e as pessoas «distantes», ao contrário, consigam ouvi-lo.



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A alegria da memória cristã

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

A alegria da memória cristã

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 40 de 06 de Outubro de 2013

Quando o cristão transforma a memória da história da salvação realizada por Jesus em simples recordação, perde de vista o valor de um dos princípios fundamentais da fé cristã: a memória que se faz alegria. E assim, vive a Eucaristia, isto é, a memória que faz a Igreja, como um evento social que causa tédio, disse o Papa Francisco ao comentar a primeira leitura da missa celebrada na manhã de quinta-feira, 3 de Outubro, na capela de Santa Marta.
Todos nós temos a memória da salvação, garantiu o Papa. Mas, perguntou, «esta memória está próxima de nós? Ou é uma memória meio distante, um pouco espalhada, um pouco arcaica, quase de museu?». Quando a memória não está próxima, quando já não fazemos experiência da memória, aos poucos ela transforma-se numa «simples recordação. Por isso, Moisés dizia ao povo: todos os anos ide ao templo, todos os anos apresentai os frutos da terra, mas todos os anos recordai-vos de onde saístes, e do modo como fostes salvos». Sentir próxima a memória da nossa salvação acende a alegria em nós. «E esta — especificou o Bispo de Roma — é a alegria do povo. É um princípio da vida cristã. Os levitas tranquilizavam o povo que chorava de emoção e repetiam: não vos entristeçais, não vos entristeçais, porque a alegria, aquilo que sentis agora, é a alegria do Senhor e é a vossa força».
E no entanto muitas vezes «nós cristãos temos medo da festa» e com frequência a vida faz com que nos afastemos da nossa memória; «só nos leva a manter a recordação da salvação, não a memória que é viva. A Igreja — realçou o Papa Francisco — faz a sua memória, aquela que faremos agora, a memória da Paixão do Senhor. O mesmo Senhor que nos disse: fazei isto em memória de Mim. Mas também acontece que afastamos esta memória e a transformamos numa recordação, num evento banal. Todas as semanas vamos à igreja, ou quando morre um conhecido e vamos ao seu funeral. E esta memória muitas vezes chateia-nos, porque não está próxima. É triste: a missa às vezes transforma-se num evento social».
Isto significa que não estamos próximos da memória da Igreja, que é a presença do Senhor diante de nós. «Peçamos ao Senhor — concluiu o Santo Padre — a graça de ter sempre a sua memória próxima de nós. Uma memória próxima e não domesticada pelo hábito, por tantas coisas, nem distante como uma simples recordação».
Na conclusão da missa de terça-feira, 1 de Outubro, o Papa falou sobre a reunião, iniciada nesse mesmo dia no Vaticano, dos cardeais consultores por ele nomeados, pedindo: «Senhor, que o nosso trabalho hodierno nos torne mais humildes, mais mansos, mais pacientes e mais confiantes em Deus. Para que assim a Igreja possa dar um bom testemunho ao povo. E vendo o povo de Deus, vendo a Igreja, sintam a vontade de vir connosco».
Anteriormente na homilia o Papa tinha recordado a memória de santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões, convidando a reflectir sobre o seu espírito de humildade, de ternura e de bondade. É este espírito manso característico do Senhor que ele quer de todos nós. O Papa propôs a força e a actualidade da figura de santa Teresa do Menino Jesus: «A Igreja sábia canonizou esta santa — humilde, pequena, confiante em Deus, mansa — padroeira das missões. Não se entende isto. A força do Evangelho consiste justamente nisto, porque o Evangelho alcança o ponto mais alto precisamente na humildade de Jesus. Humildade que se torna humilhação. E a força do Evangelho está na humildade. Humildade de criança que se deixa guiar pelo amor e pela ternura do Pai».
Na missa de segunda-feira, 30 de Setembro, o Papa Francisco reflectiu sobre a atmosfera que se respira quando a Igreja sabe colher a presença constante do Senhor. Uma atmosfera de paz, justamente, na qual reina a alegria do Senhor. Os episódios de referência foram tirados do livro de Zacarias (8, 1-8) e do Evangelho de Lucas (9, 46-50) que narra a disputa surgida entre os apóstolos sobre quem deles era o maior. Nos dois trechos o Pontífice vê uma espécie de debate, ou melhor, um intercâmbio de opiniões sobre a organização da Igreja. Mas, recordou, «o Senhor gosta de surpreender» e assim «muda o centro do debate»: indica um menino ao seu lado, dizendo: «Quem acolher este menino em meu nome, é a mim que acolhe, pois quem for o mais pequenino entre vós, esse é grande». E os discípulos não entendiam.
«Na primeira leitura — especificou o Papa — ouvimos a promessa de Deus ao seu povo: voltarei a Sião, habitarei em Jerusalém e Jerusalém será chamada cidade fiel. O Senhor voltará». Mas «quais são os sinais de que o Senhor voltou? Uma boa organização? Um governo que vá em frente limpo e perfeito?», perguntou-se. Para responder, o Santo Padre propôs a imagem da praça de Jerusalém cheia de velhos e de crianças. Portanto, «aqueles que deixamos de lado quando pensamos num programa de organização — afirmou — são o sinal da presença de Deus: os velhos e as crianças. Os velhos porque trazem consigo a sabedoria, a sabedoria da sua vida, a sabedoria da tradição, a sabedoria da História, a sabedoria da lei de Deus; e as crianças, porque são também a força, o futuro, aqueles que levarão em frente o futuro com a própria força e com a sua vida».
O futuro de um povo — afirmou o Papa Francisco — «consiste precisamente nisto, nos velhos e nas crianças. E um povo que não cuida dos seus velhos nem das suas crianças não tem futuro, porque não terá memória nem promessa. Os velhos e as crianças são o futuro de um povo».
Infelizmente, disse, é um hábito triste pôr de lado as crianças «com um rebuçado ou com um brinquedo». Assim, como não deixar que também os velhos falem e «ignorar os seus conselhos». No entanto, Jesus recomenda que se preste a máxima atenção às crianças, que não as escandalizem: e recorda que «o único mandamento que traz consigo uma bênção é precisamente o quarto, o dos pais, os velhos: honrar».
«A palavra criança — concluiu o bispo de Roma — faz-nos pensar na alegria. É a alegria do Senhor. E os anciãos sentados com o bastão na mão, fazem-nos pensar na paz. Paz e alegria, este é o ar da Igreja».



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No caminho de Jesus

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE
No caminho de Jesus

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 39 de 29 de Setembro de 2013
 
A escolha é entre «ser cristãos do bem-estar» ou «cristãos que seguem Jesus». Os cristãos do bem-estar são os que pensam que têm tudo se tiverem a Igreja, os sacramentos, os santos... Os outros são cristãos que seguem Jesus até ao fim, até à humilhação da cruz, e suportam serenamente tal humilhação. Em síntese, foi esta a reflexão proposta pelo Papa Francisco na manhã de sexta-feira, 27 de Setembro, na homilia da missa celebrada na capela de Santa Marta.
O Santo Padre deteve-se na descrição de diversas atitudes que um cristão pode assumir. O perigo que corremos, advertiu, é ceder «à tentação do bem-estar espiritual», isto é, de pensar que temos tudo: a Igreja, Jesus Cristo, os sacramentos, Nossa Senhora e, portanto, já nada devemos procurar. Se pensarmos assim «somos bons, todos, porque pelo menos devemos pensar nisto; se pensarmos o contrário é pecado». Mas isto «não basta. O bem-estar espiritual — explicou o Papa — existe até a um certo ponto». O que falta para ser cristão verdadeiramente é «a unção da cruz, a unção da humilhação. Ele humilhou-se a si mesmo até à morte e morte de cruz. Este é o termo de comparação, a verificação da nossa realidade cristã. Sou um cristão de cultura do bem-estar ou sou um cristão que acompanha o Senhor até à cruz? O cristão que não concordar com o programa do Senhor é um cristão na metade do caminho; um tíbio. É bom, realiza coisas boas» mas continua a não suportar as humilhações e a perguntar-se «por que àquele sim e a mim não? A humilhação a mim não. E por que acontece isto e a mim não? E por que nomeiam aquele monsenhor e a mim não?».
Mas nem todos, disse o Papa, estão dispostos a seguir o caminho de Jesus: pensam que é um escândalo se lhes fazem algo que julgam uma afronta e se lamentam por isso. Portanto, o sinal para entender «se um cristão é verdadeiramente cristão» é «a sua capacidade de suportar com alegria e paciência as humilhações».
Para conhecer verdadeiramente Jesus é preciso falar com ele, dialogar com ele enquanto o seguimos no seu caminho. O Papa Francisco centrou a sua homilia da missa celebrada na manhã de quinta-feira, 26 de Setembro, exactamente no conhecimento de Jesus.
O Pontífice inspirou-se no trecho do Evangelho de Lucas (9, 7-9) no qual Herodes se questiona sobre quem é aquele Jesus de quem tanto ouve falar. A pessoa de Jesus, recordou o Pontífice, suscitou muitas vezes perguntas deste tipo: «Quem é? De onde vem? Pensemos em Nazaré, por exemplo, na sinagoga de Nazaré, quando esteve lá pela primeira vez: mas onde aprendeu tudo isto? Nós conhecemo-lo bem: é o filho do carpinteiro. Pensemos em Pedro e nos apóstolos depois da tempestade, naquele vento que Jesus parou. Mas quem é aquele ao qual obedecem o céu e a terra, o vento, a chuva, a tempestade? Mas quem é?».
Perguntas, explicou o Papa, que se podem formular por curiosidade ou para ter certezas sobre o modo de se comportar diante dele. Contudo, permanece o facto que quem conhece Jesus se faz estas perguntas. Aliás, «alguns — prosseguiu o Papa voltando ao episódio evangélico — começam a ter medo deste homem, porque os pode levar a um conflito político com os romanos»; e, portanto, decidem não considerar mais «este homem que causa tantos problemas».
E por que, perguntou-se o Pontífice, Jesus provoca problemas? «Não se pode conhecer Jesus — foi a sua resposta — sem ter problemas». Paradoxalmente, acrescentou, «se quiseres ter um problema, vai pelo caminho que te leva a conhecer Jesus» e então surgirão muitos problemas. Em todo o caso, não se pode conhecer Jesus «na primeira classe» ou «na tranquilidade», nem «na biblioteca». Só conhecemos Jesus no caminho diário da vida. Para conhecer verdadeiramente Jesus é preciso ler «o que a Igreja diz sobre ele, falar com ele na oração e caminhar na sua estrada com ele». Este é o caminho e «cada um — concluiu — deve fazer a própria escolha».
A vergonha diante de Deus, a oração para implorar a misericórdia divina e a plena confiança no Senhor: foram estes os pontos centrais da reflexão do Papa Francisco na manhã de 25 de Setembro. Ao comentar as leituras da liturgia (Es 9,5-9; Lc 9, 1-6), o Santo Padre disse que o trecho tirado do livro de Esdras o levou a pensar nos bispos maronitas e, como de costume, resumiu o seu pensamento em volta de três conceitos. A atitude de vergonha e confusão diante de Deus, a ponto de não conseguir dirigir o olhar para Ele; vergonha e confusão de todos nós pelos pecados que nos levaram à escravidão, porque servimos ídolos que não são Deus.
A oração é o segundo conceito. Seguindo o exemplo de Esdras, que de joelhos levanta as mãos para Deus implorando a misericórdia, assim devemos agir também nós por causa dos nossos numerosos pecados. Uma prece que, disse o Papa, é preciso elevar também pela paz no Líbano, na Síria e em todo o Médio Oriente. A oração é sempre o caminho que devemos percorrer para enfrentar os momentos difíceis, como as provas mais dramáticas e as trevas que às vezes nos fazem viver situações imprevisíveis. O sacramento não é «um rito mágico», mas o instrumento que Deus escolheu para continuar a caminhar ao lado do homem como companheiro de viagem na vida, para fazer a história com o homem, esperando por ele, se for necessário. E diante desta humildade de Deus devemos ter a coragem de o deixar escrever a história, que deste modo se torna «segura».
A certeza da presença divina contínua na vida do homem foi o cerne da homilia do Papa na manhã de 24 de Setembro, na missa celebrada em Santa Marta. «A Igreja — disse o Papa — celebra esta certeza com muita alegria inclusive na Eucaristia». E recordou «a bonita oração eucarística, que hoje recitaremos, entoando o grande amor de Deus que quis ser humilde, quis ser companheiro de caminho de todos nós e quis também escrever a história connosco». E se Ele, concluiu, «entrou na nossa história, entremos também nós um pouco na sua, ou pelo menos peçamos-lhe a graça de escrever a história com Ele. Que Ele escreva a nossa história. É segura!».



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O poder do dinheiro

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE
O poder do dinheiro

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 38 de 22 de Setembro de 2013
É preciso evitar ceder à tentação de idolatrar o dinheiro. Significaria debilitar a nossa fé e deste modo correr o risco de se tornar dependente do engano dos desejos insensatos e prejudiciais, aqueles que levam o homem a ponto de se afogar na ruína e na perdição. Sobre este perigo o Papa Francisco advertiu-nos durante a homilia da missa celebrada na sexta-feira 20 de Setembro, na capela de Santa Marta. «Jesus — afirmou o Santo Padre comentando as leituras — disse-nos claramente, e também de maneira definitiva, que não podemos servir a dois senhores: não podemos servir a Deus e ao dinheiro. Entre eles alguma coisa não se harmoniza. Há algo na atitude de amor pelo dinheiro que nos afasta de Deus». E citando a primeira carta de são Paulo a Timóteo (6, 2-12), o Papa disse: «Aqueles que querem enriquecer caem na tentação do engano de muitos desejos insensatos e prejudiciais, que fazem com que os homens se afoguem na ruína e na perdição».
De facto, a avidez — prosseguiu — «é a raiz de todos os males. Subjugados pelo desejo, alguns desviaram-se da fé e encontraram muitos tormentos. É o poder do dinheiro que nos faz desviar da fé pura. Priva-nos da fé, debilita-se e acabamos por perdê-la». E, permanecendo na carta paulina, frisou que o apóstolo afirma em seguida que «se alguém ensina diversamente e não segue as palavras sadias de nosso Senhor Jesus Cristo e a doutrina em conformidade com a religiosidade verdadeira fica cego de orgulho, nada compreende e torna-se um maníaco de questões ociosas e conversas inúteis». Depois, o Papa explicou o pecado ligado ao desejo do dinheiro, com todas as suas consequências, no primeiro dos dez mandamentos: peca-se de «idolatria», disse: «O dinheiro — evidenciou — torna-se ídolo e tu prestas-lhe culto. E por isso Jesus diz-nos: não podes servir ao ídolo dinheiro e ao Deus vivo. Um ou outro». Os primeiros Padres da Igreja «diziam uma palavra forte: o dinheiro é esterco do diabo. É assim, porque nos torna idólatras e adoece a nossa mente com o orgulho, tornando-nos maníacos de questões ociosas e afasta-nos da fé. Corrompe». O apóstolo Paulo por sua vez diz-nos para nos inclinarmos para a justiça, a piedade, a fé, a caridade, à paciência. Contra a vaidade e o orgulho «serve a mansidão». Aliás, «este é o caminho de Deus, não o do poder idolátrico que o dinheiro pode dar. É o caminho da humildade de Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer precisamente com a sua pobreza. Este é o caminho para servir Deus. E que o Senhor ajude todos nós a não cair na armadilha da idolatria do dinheiro».
Como uma mãe que nos ama, nos defende, nos dá a força para ir em frente na luta contra o mal. Eis a imagem da Igreja caracterizada pelo Papa Francisco na terça-feira 17 de Setembro, durante a missa celebrada de manhã cedo em Santa Marta.
Comentando o trecho do Evangelho de Lucas que narra a ressurreição do filho da viúva de Naim (7, 11-17), o Pontífice descreveu Jesus que, ao ver a mulher diante do cadáver do seu único filho, «sentiu grande compaixão». E definiu o sentimento de Cristo como «a capacidade de sofrer connosco, de estar próximo dos nossos sofrimentos e fazê-los seus». Ele sabia bem «o que significava ser viúva naquele tempo», quando as mães que ficavam sozinhas a crescer os filhos dependiam da ajuda e da caridade de outros. Em relação a elas o Senhor mostra uma particular «atenção, um amor especial», a ponto que elas acabam por constituir «um ícone da Igreja, porque — explicou — também a Igreja é num certo sentido viúva: o seu esposo foi embora e ela caminha na história esperando encontrá-lo. Então ela será a esposa definitiva». «Entretanto, admoestou, a Igreja está sozinha», e o Senhor não é visível para ela: portanto, «tem uma certa dimensão de viuvez». A primeira consequência desta viuvez é que a Igreja se torna «corajosa», à semelhança de uma mãe «que defende os filhos». Da coragem deriva depois um segundo elemento, a força, como testemunham outras viúvas descritas nas Escrituras. E dado que o Papa vê a «nossa mãe Igreja nesta viúva que chora», é preciso perguntar-nos o que diz o Senhor a esta mãe para a confortar. A resposta está nas próprias palavras de Jesus referidas por Lucas: «Não chores!», porque «eu estou contigo, acompanho-te, espero-te lá, nas núpcias, as últimas núpcias, as do Cordeiro»; não chores, «este teu filho que estava morto agora vive». E a esta última, terceira figura presente no cenário evangélico, o Senhor dirige-se ordenando-lhe: «Jovem, eu te digo: levanta-te!». Para o Pontífice são as mesmas palavras que o Senhor dirige aos homens no sacramento da reconciliação, «quando morremos para o pecado pedindo-lhe perdão». O Papa concluiu afirmando que «não há caminho de vida, não há perdão, não há reconciliação fora da mãe Igreja», e por isso é sempre necessário «pedir ao Senhor a graça de ser confiantes nesta mãe que nos defende, ensina, faz crescer».
Um bom cristão participa activamente na vida política e reza para que os políticos amem o próprio povo e o sirvam com humildade. Foi a reflexão proposta pelo Papa Francisco na missa celebrada a 16 de Setembro, em Santa Marta.
Comentando o trecho do evangelho de Lucas (7, 1-10) no qual é narrada a cura, por obra de Jesus, do servo do centurião em Cafarnaum, o Pontífice realçou «duas atitudes do governante». Antes de tudo, «deve amar o seu povo. Um governante que não ama não pode governar. No máximo, pode pôr um pouco de ordem mas não pode governar». Para o Papa Francisco o governante deve ser também humilde como o centurião do Evangelho, que teria podido orgulhar-se do seu poder, se Jesus lhe tivesse pedido para ir ter com ele, mas «era um homem humilde e disse ao Senhor: não te preocupes, não sou digno que entreis em minha casa, mas diz uma palavra e o meu servo será curado. Estas são as duas virtudes de um governante: amor ao povo e humildade». Contudo, também os governados devem fazer a suas escolhas. A política, diz a doutrina social da Igreja, é uma das mais elevadas formas de caridade, porque é servir o bem comum. Por conseguinte, devemos colaborar, com a nossa opinião, com a nossa palavra e também com a nossa correcção. Um bom católico participa na política oferecendo o melhor de si para que o governante possa governar». Então, o que «podemos oferecer de bom» aos governantes? «A oração», respondeu o Pontífice. Rezemos pelos governantes para que nos governem bem. Para que levem em frente a nossa pátria, a nossa nação e também o mundo; e que haja paz e bem comum.



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Dos murmúrios ao amor pelo próximo.

PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE
Dos murmúrios ao amor pelo próximo

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 37 de 15 de Setembro de 2013
As tagarelices matam como e mais que as armas. Sobre este conceito o Papa Francisco voltou a falar na manhã de sexta-feira 13 de Setembro, na missa celebrada na capela de Santa Marta. Comentando as leituras do dia, tiradas da carta a Timóteo (1, 1-2. 12-14) e do Evangelho de Lucas (6, 39-42), o Pontífice realçou que o Senhor — depois de ter proposto, nos últimos dias, atitudes de mansidão, humildade e magnanimidade — «hoje nos fala do contrário», ou seja, de uma «atitude odiosa para com o próximo», a que temos quando nos tornamos «juízes do irmão».
O Papa Francisco recordou o episódio evangélico no qual Jesus repreende quem pretende tirar o argueiro do olho do outro sem ver a trave que está no seu. Este comportamento, o facto de se sentir perfeito e, por conseguinte, capaz de julgar os defeitos dos outros, é contrário à mansidão, à humildade sobre as quais fala o Senhor, «àquela luz que é tão bela e que consiste em perdoar». Jesus, evidenciou o Santo Padre, usa «uma palavra forte: hipócrita». E sublinhou: «Os que vivem julgando o próximo, falando mal do próximo são hipócritas: porque não têm a força, a coragem de ver os próprios defeitos. Sobre esta questão o Senhor não fala muito. Mais tarde dirá: aquele que tem no seu coração o ódio contra o irmão é um homicida. Isto será proferido também pelo apóstolo João, que muito claramente na sua primeira carta afirma: quem odeia o próprio irmão caminha nas trevas. Quem julga o seu irmão é um homicida». Por conseguinte, acrescentou, «todas as vezes que julgamos os irmãos no nosso coração, ou pior, quando falamos mal deles com os outros, somos cristãos homicidas». E isto «não sou eu quem o digo, mas é o Senhor quem o diz», especificou acrescentando que «sobre este ponto não há dúvidas: se falares mal do teu irmão estás a matá-lo. E todas as vezes que fizermos isto, imitaremos o gesto de Caim, o primeiro homicida». O Pontífice concluiu invocando «para nós, para toda a Igreja, a graça da conversão da criminalidade das maledicências na humildade, na mansidão, na magnanimidade do amor ao próximo».
Não é fácil para os cristãos viver segundo os princípios e as virtudes inspirados por Jesus. «Não é fácil — disse o Papa na missa celebrada na manhã de 12 de Setembro em Santa Marta — mas é possível»: basta «contemplar Jesus sofredor, a humanidade sofredora» e levar «uma vida escondida com Jesus em Deus».
A reflexão do Santo Padre foi inspirada pela celebração da memória litúrgica do nome de Maria. «Outrora, esta festa chamava-se o doce nome de Maria e hoje na oração pedimos a graça de sentir a força e a doçura de Maria. Precisamos da sua doçura para entender o que Jesus nos pede.
«O apóstolo Paulo insiste sobre este tema: “Irmãos, escolhidos por Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos de ternura, bondade, humildade, mansidão e magnanimidade, suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros” (Cl 3, 12-17)». Sem dúvida, observou o Pontífice, pede-se-nos muito e por isso a primeira pergunta é: «Como posso fazer isto?». Para o Papa, a resposta é clara: «Com o nosso esforço não podemos fazê-lo. Só uma graça pode fazê-lo em nós. O nosso esforço é necessário, mas insuficiente».
«Nestes dias, Paulo falou-nos muitas vezes de Jesus como totalidade e esperança do cristão, porque é o esposo da Igreja e infunde esperança para ir em frente, como vencedor sobre o pecado e a morte». A este propósito, o apóstolo ensina-nos algo: «Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo triunfador; Ele está à direita de Deus. Dirigi o pensamento para as coisas do alto... Com efeito, estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus».
Eis «o caminho para fazer o que o Senhor nos pede: esconder a nossa vida com Cristo em Deus». E isto deve renovar-se em cada atitude diária. Mansidão, bondade, ternura e magnanimidade são as virtudes necessárias para seguir o caminho indicado por Cristo. Recebê-las é «uma graça que brota da contemplação de Jesus».
«Só contemplando a humanidade sofredora de Jesus, podemos ser mansos como Ele. Não há outro caminho». Portanto, para ser cristão é necessário contemplar sempre a humanidade de Jesus, o homem que sofre.
Hoje, no mundo, há «muitos cristãos sem a ressurreição». A eles o Papa Francisco, durante a missa celebrada na manhã de 10 de Setembro, em Santa Marta, dirigiu o convite a encontrar o caminho para ir rumo a Jesus ressuscitado, deixando-se «tocar por Ele, pela sua força», porque Cristo «não é uma ideia espiritual», mas está vivo. E com a sua ressurreição «venceu o mundo».
Ao comentar as leituras da liturgia do dia, o Pontífice recordou alguns trechos da carta aos Colossenses, nos quais são Paulo fala sobre a figura de Jesus, descrito gradualmente como «a totalidade, o centro, a esperança, porque é o esposo». No trecho de hoje (2, 6-15) o apóstolo acrescenta outro fragmento, definindo Cristo «o vencedor», aquele que «venceu a morte, o pecado e o demónio». Portanto, a mensagem paulina inclui um convite a caminhar no Senhor ressuscitado, bem enraizado e edificado nele, na sua vitória, firme na fé. Em particular, o Pontífice referiu-se àqueles «cristãos sem Cristo ressuscitado», os que «acompanham Jesus até ao túmulo, choram, amam-no tanto», mas não são capazes de ir além. E a este propósito, identificou três categorias: os temerosos, os vergonhosos e os triunfalistas.
Os primeiros, explicou, «são os da manhã da ressurreição, os de Emaús que fugiram, porque tinham medo»; são «os apóstolos que se fecharam no Cenáculo por medo dos judeus»; são também «as mulheres boas que choram», como Madalena em lágrimas «porque levaram embora o corpo do Senhor».
A segunda categoria é a dos «vergonhosos, para os quais confessar que Cristo ressuscitou suscita um pouco de vergonha neste mundo tão avançado nas ciências».
Por fim, o terceiro grupo é o dos cristãos que no íntimo «não acreditam no ressuscitado e querem fazer própria uma ressurreição mais majestosa que a de Jesus». O Pontífice definiu-os «triunfalistas», porque «têm um complexo de inferioridade» e adoptam «atitudes triunfalistas na sua vida, nos seus discursos, na sua pastoral e na liturgia».
Segundo o Papa Francisco, é necessário recuperar a consciência de que Jesus ressuscitou. E, por conseguinte, os cristãos são chamados «sem temor, sem medo e sem triunfalismo» a olhar «para a sua beleza», a pôr o dedo nas chagas e a mão no lado do ressuscitado, daquele «Cristo que é tudo, a totalidade; Cristo é o centro, Cristo é a esperança», porque é o esposo, é o vencedor. E «um vencedor — acrescentou — restabelece toda a criação».
Referindo-se ao trecho do Evangelho de Lucas (6, 12-19), o Santo Padre evocou de novo a imagem de Jesus entre a multidão de homens e mulheres que acorreram para «o ouvir e ser curados das suas doenças. Nisto o Papa Francisco vê a promessa da vitória final de Cristo, o qual «cura todo o universo», é «a sua ressurreição». Eis porque, foi a conclusão, é necessário redescobrir a beleza de ir rumo ao ressuscitado, deixando-se tocar por Ele, pela sua força.
Como é triste quando um sacerdote perde a esperança! Por isso, na missa celebrada na manhã de 9 de Setembroem Santa Marta, o Papa Francisco dirigiu aos sacerdotes presentes o convite a cultivar esta virtude, «que para os cristãos tem o nome de Jesus». E o povo de Deus tem necessidade de que nós, sacerdotes, demos esta esperança em Jesus, que renova tudo: em cada Eucaristia renova a criação, em cada gesto de caridade renova o seu amor em nós».
O Pontífice falou da esperança inspirando-se na reflexão hodierna e dos dias precedentes, nas quais Jesus foi proposto como totalidade, centro da vida do cristão, único esposo da Igreja. O Pontífice meditou sobre o conteúdo da Carta de São Paulo aos Colossenses (1, 24-2, 3): Jesus «mistério escondido, Deus». O mistério de Deus que «se manifestou em Jesus, nossa esperança: é o tudo, o centro e também a nossa esperança». O optimismo, explicou, é uma atitude humana que depende de muitas coisas, mas a esperança é diversa: «é um dom, uma dádiva do Espírito Santo e por isso Paulo dirá que ela nunca engana».
O Papa indicou uma confirmação deste conceito no Evangelho de Lucas (6, 6-11), na referência ao tema da liberdade. A «liberdade e esperança caminham juntas: onde não há esperança, não pode haver liberdade». Jesus «não é um curandeiro, mas um homem que recria a existência. E isto dá-nos esperança, porque Jesus veio precisamente para este grande milagre, para recriar tudo». Portanto, acrescentou, «a grande maravilha é a reforma de Jesus. E isto dá-nos esperança: Jesus recria tudo». E quando «nos unimos a Jesus na sua paixão renovamos o mundo».



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